segunda-feira, 17 de abril de 2023

 

Dom Pedro era um homem de grande soberba, um galanteador, todas as mulheres que o conheciam ficavam completamente encantadas em sua presença. E quando o grande Imperador se fazia presente ou pedia algo, claro era atendido de imediato.

Mas o poeta Veiga, a quem o Imperador tinha em grande estima, não era assim tão obediente. Afinal poeta é um ser à parte, a alma se eleva, o pensamento voa, e a vida passa. Este estava completamente apaixonado. E paixão é coisa séria. A moça de seu encantamento era uma das acompanhantes da pequena Isabel, a princesinha risonha e brincalhona, que vivia fugindo do palácio, com seu amigo Zequinha, um menino filho de uma das empregadas do palácio.

O menino conhecia passagens secretas que nem mesmo os empregados mais antigos conheciam. Pois bem, o pobre Veiga, seguia de perto as peripécias das crianças, e a moça de seus suspiros vivia a correr atrás de Isabel. E ele Veiga, querendo cortejá-la, se prestou em ajudá-la em proteger Isabel.

Quando a moça de desesperava, recorria ao Senhor Veiga. Este de bom grado a ajudava. E o Imperador de nada sabia.  Mandem chamar o Veiga, e os empregados partiam na empreitada.

Mas não o encontravam. _Imperador, o Senhor Veiga, desapareceu.

_ Como assim? ele está não está no palácio, encontrem-no.

_ Não majestade, revistamos cada recanto do palácio. _ Procurem o homem

E lá iam eles. O poeta evaporou, pensavam.

Passavam-se dias, e a resposta era a mesma.

_ Não o encontramos majestade.

E assim os dias viraram meses.

O Imperador, enfim cansou-se. Sabia que o amigo Evaristo Veiga, era um poeta com a cabeça nas nuvens, sorria e deixava ao acaso. No fundo sentiu vontade de ter a mesma liberdade.

Ele que se explicasse quando voltasse à vida da corte.

O Imperador, era um grande músico. Também tinha a cabeça nas nuvens, e por muitas vezes, também esquecia de suas obrigações como regente. Sentava-se ao piano, e das teclas saia música que anunciava a alma de um homem apaixonado pela vida, e pela música, que lhe dava a sensação mágica de leveza e liberdade. Afinal a vida de um regente não era nada fácil. Pressões de Portugal, seu reinado ameaçado por intrigas de Estado, seus conflitos amorosos, sua vontade de ser somente um homem, um homem comum.

Sonhava como qualquer ser humano, se pudesse largaria tudo, por um piano e sua música que o levariam dali, para um outro mundo. Mas ele era um Imperador, o regente maior do Brasil. Que loucura seria essa? Um Imperador de repente virar um mero pianista, seria um caos. Nunca se havia ouvido tanto disparate.

Então deixava o piano que amava, e ia ter com seus ministros. E lá vinham uma enxurrada de problemas, ele um diplomata na arte de reinar, não tinha às vezes coragem de entrar em contendas. Mas era preciso, não tinha mais como fugir das exigências da Corte portuguesa. Ele se sentia brasileiro. Ele fora um menino, conhecera o Brasil bem cedo e se apaixonara pela Terra morena.

Isabel, a princesinha era para ele, sua maior alegria. Quando estava com ela, deixava de ser Imperador, era tão moleque quanto ela. Pensando nisso mandou que lhe trouxessem Isabel.

_ Não a encontramos senhor.

_ Onde está a princesa?

_ Não sabemos senhor.

E foi assim por algum tempo.

_ Onde estão as aias de Isabel?

_ Estão à procura da Princesa senhor.

Os dias seguiam, nada da Princesa. nada das aias, nada da babá, e do Veiga.

Meses, sem que o Imperador, atarefado com coisas do reino, tivesse notícias de seus empregados sobre os desaparecidos. Era como se a terra os tivesse engolido.

Durante um reinado, as obrigações do Imperador não deixavam que ele tivesse tempo para estar com a filha, ou seus familiares, as obrigações de um regente, demandavam longas tarefas, viagens, encontros com outros regentes, e a maratona de viagens em lombo de burro ou cavalo. As distâncias eram demasiadamente grandes, e quando estas viagens ocorriam, eram semanas e até meses distantes. Cartas demoravam a chegar, carruagens quebravam em meio a regiões completamente desoladas.

Era natural estar afastado, sem contar quando tinha de prestar contas a Portugal. Viagens de navio, duravam meses. Mas estas ele já não fazia. E isso incomodava o Rei português.

Então o Imperador tomou a decisão. Sou brasileiro. Cortou todo e qualquer contato com o Reino de Portugal. Não lamentou o cortar os laços com a Corte portuguesa. Lamentava só o sumiço da Princesa, e do seu amigo de alma e música o Veiga.

Um dia de repente a Princesa apareceu.

_ Papai esse aqui é o meu amigo. E o Imperador viu um lindo menino moreno e risonho. E perguntou: _ quem é você?

E o menino:_ Sou Zequinha.

O Imperador indagou: _ de onde você veio?

Sou filho da aia Naná. _ Bom, exclamou o Imperador

E a Princesa correu ao colo do pai e foi dizendo: _ Papai brincamos de esconder, meu amigo conhece muitos lugares no Palácio. E foi contando, todas as suas aventuras.

Passaram-se dias e o Veiga apareceu.

O Imperador lhe passou uma carraspana. O Veiga nada explicou, mas lhe entregou um poema. E o Imperador logo sentou-se ao piano, e deu corpo as palavras. Era a elegia final à sua vontade.

Enfim em seu peito brasileiro nasceu a elegia do Brasil. O hino ao reino de amor à brasileirice. O Hino da Independência. Que retratava seu amor por essa terra e nossa gente.

A meiguice da Princesa amiga dos escravos, a alegria do Veiga apaixonado pela aia mulata, a voz de um povo a quem a sua Terra natal havia colonizado, nasceu o Brasil de sua magia incomparável, um chão liberto. Enfim o Imperador brasileiro que não mais tinha laços com Portugal.

Ivete Rosa de Sousa (Rosa dos Ventos), nasceu em Santo André, São Paulo no ano de 1955. Assídua leitora desde criança, apaixonada por poesia. Foi policial por mais de vinte anos, viu os dois lados do ser humano, mas não deixou de sentir e escrever poesias. Com dois livros publicados e participação em mais de trinta antologias, tanto físicas como digitais. Escreve contos, crônicas, além de poemas. Acredita que escrever é uma libertação. Colunista do Jornal Rio de Flores e Jornal Rol da Internet.

Hino da Independência é uma canção patriótica oficial comemorando a declaração da Independência do Brasil e foi o hino do Brasil durante o Império do Brasil. A letra do Hino da Independência, escrita pelo jornalista, poeta e político Evaristo da Veiga (1799-1837) em agosto de 1822, recebeu inicialmente o título de "Hino Constitucional Brasiliense", com música de Marcos Portugal. Foi transformado em Hino da Independência, musicado por Dom Pedro I, em 1824. Com a Proclamação da República, o hino foi gradativamente abandonado. Somente em 1922, quando do centenário da independência, ele voltaria a ser executado.

Evaristo Ferreira da Veiga e Barros
 (Rio de Janeiro, 08 de Outubro de 1799 — Rio de Janeiro, 12 de maio de 1837) foi um poeta, jornalista, político e livreiro brasileiro, conhecido por ter sido o autor da letra do "Hino a Independência do Brasil", cuja música se deve a Dom Pedro I.  Conta entre os precursores do Romantismo Brasileiro.




Fontes:
Texto: Ivete Rosa de Souza
Ilustrações e pesquisas: Jornal Rio de Flores

Edição e Direção Geral
Renato Galvão


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