Dom Pedro era um homem de
grande soberba, um galanteador, todas as mulheres que o conheciam ficavam
completamente encantadas em sua presença. E quando o grande Imperador se fazia
presente ou pedia algo, claro era atendido de imediato.
Mas o poeta Veiga, a quem o
Imperador tinha em grande estima, não era assim tão obediente. Afinal poeta é
um ser à parte, a alma se eleva, o pensamento voa, e a vida passa. Este estava
completamente apaixonado. E paixão é coisa séria. A moça de seu encantamento
era uma das acompanhantes da pequena Isabel, a princesinha risonha e
brincalhona, que vivia fugindo do palácio, com seu amigo Zequinha, um menino
filho de uma das empregadas do palácio.
O menino conhecia passagens
secretas que nem mesmo os empregados mais antigos conheciam. Pois bem, o pobre
Veiga, seguia de perto as peripécias das crianças, e a moça de seus suspiros
vivia a correr atrás de Isabel. E ele Veiga, querendo cortejá-la, se prestou em
ajudá-la em proteger Isabel.
Quando a moça de
desesperava, recorria ao Senhor Veiga. Este de bom grado a ajudava. E o
Imperador de nada sabia. Mandem chamar o
Veiga, e os empregados partiam na empreitada.
Mas não o encontravam. _Imperador,
o Senhor Veiga, desapareceu.
_ Como assim? ele está não
está no palácio, encontrem-no.
_ Não majestade, revistamos
cada recanto do palácio. _ Procurem o homem
E lá iam eles. O poeta
evaporou, pensavam.
Passavam-se dias, e a
resposta era a mesma.
_ Não o encontramos
majestade.
E assim os dias viraram
meses.
O Imperador, enfim
cansou-se. Sabia que o amigo Evaristo Veiga, era um poeta com a cabeça nas nuvens,
sorria e deixava ao acaso. No fundo sentiu vontade de ter a mesma liberdade.
Ele que se explicasse quando
voltasse à vida da corte.
O Imperador, era um grande
músico. Também tinha a cabeça nas nuvens, e por muitas vezes, também esquecia
de suas obrigações como regente. Sentava-se ao piano, e das teclas saia música
que anunciava a alma de um homem apaixonado pela vida, e pela música, que lhe
dava a sensação mágica de leveza e liberdade. Afinal a vida de um regente não
era nada fácil. Pressões de Portugal, seu reinado ameaçado por intrigas de
Estado, seus conflitos amorosos, sua vontade de ser somente um homem, um homem
comum.
Sonhava como qualquer ser
humano, se pudesse largaria tudo, por um piano e sua música que o levariam
dali, para um outro mundo. Mas ele era um Imperador, o regente maior do Brasil.
Que loucura seria essa? Um Imperador de repente virar um mero pianista, seria
um caos. Nunca se havia ouvido tanto disparate.
Então deixava o piano que
amava, e ia ter com seus ministros. E lá vinham uma enxurrada de problemas, ele
um diplomata na arte de reinar, não tinha às vezes coragem de entrar em
contendas. Mas era preciso, não tinha mais como fugir das exigências da Corte portuguesa.
Ele se sentia brasileiro. Ele fora um menino, conhecera o Brasil bem cedo e se
apaixonara pela Terra morena.
Isabel, a princesinha era
para ele, sua maior alegria. Quando estava com ela, deixava de ser Imperador, era
tão moleque quanto ela. Pensando nisso mandou que lhe trouxessem Isabel.
_ Não a encontramos senhor.
_ Onde está a princesa?
_ Não sabemos senhor.
E foi assim por algum tempo.
_ Onde estão as aias de
Isabel?
_ Estão à procura da
Princesa senhor.
Os dias seguiam, nada da
Princesa. nada das aias, nada da babá, e do Veiga.
Meses, sem que o Imperador,
atarefado com coisas do reino, tivesse notícias de seus empregados sobre os
desaparecidos. Era como se a terra os tivesse engolido.
Durante um reinado, as
obrigações do Imperador não deixavam que ele tivesse tempo para estar com a
filha, ou seus familiares, as obrigações de um regente, demandavam longas
tarefas, viagens, encontros com outros regentes, e a maratona de viagens em
lombo de burro ou cavalo. As distâncias eram demasiadamente grandes, e quando
estas viagens ocorriam, eram semanas e até meses distantes. Cartas demoravam a
chegar, carruagens quebravam em meio a regiões completamente desoladas.
Era natural estar afastado,
sem contar quando tinha de prestar contas a Portugal. Viagens de navio, duravam
meses. Mas estas ele já não fazia. E isso incomodava o Rei português.
Então o Imperador tomou a
decisão. Sou brasileiro. Cortou todo e qualquer contato com o Reino de Portugal.
Não lamentou o cortar os laços com a Corte portuguesa. Lamentava só o sumiço da
Princesa, e do seu amigo de alma e música o Veiga.
Um dia de repente a Princesa
apareceu.
_ Papai esse aqui é o meu
amigo. E o Imperador viu um lindo menino moreno e risonho. E perguntou: _ quem
é você?
E o menino:_ Sou Zequinha.
O Imperador indagou: _ de
onde você veio?
Sou filho da aia Naná. _ Bom,
exclamou o Imperador
E a Princesa correu ao colo
do pai e foi dizendo: _ Papai brincamos de esconder, meu amigo conhece muitos
lugares no Palácio. E foi contando, todas as suas aventuras.
Passaram-se dias e o Veiga
apareceu.
O Imperador lhe passou uma
carraspana. O Veiga nada explicou, mas lhe entregou um poema. E o Imperador
logo sentou-se ao piano, e deu corpo as palavras. Era a elegia final à sua
vontade.
Enfim em seu peito
brasileiro nasceu a elegia do Brasil. O hino ao reino de amor à brasileirice. O
Hino da Independência. Que retratava seu amor por essa terra e nossa gente.
A meiguice da Princesa amiga dos escravos, a alegria do Veiga apaixonado pela aia mulata, a voz de um povo a quem a sua Terra natal havia colonizado, nasceu o Brasil de sua magia incomparável, um chão liberto. Enfim o Imperador brasileiro que não mais tinha laços com Portugal.
Ivete Rosa de Sousa (Rosa dos Ventos), nasceu em Santo André, São Paulo no ano de 1955. Assídua leitora desde criança, apaixonada por poesia. Foi policial por mais de vinte anos, viu os dois lados do ser humano, mas não deixou de sentir e escrever poesias. Com dois livros publicados e participação em mais de trinta antologias, tanto físicas como digitais. Escreve contos, crônicas, além de poemas. Acredita que escrever é uma libertação. Colunista do Jornal Rio de Flores e Jornal Rol da Internet.





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