sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

 

 

Em 1769, o poeta Basílio da Gama  publicou o poema épico O Uraguai. Como era comum entre os poetas do Arcadismo, Basílio da Gama usava um pseudônimo, que, no seu caso, era Termindo Sipílio ou Cipílio (esses pseudônimos remetiam a pastores de ovelhas da Grécia antiga, inspiração para o Arcadismo).

O cenário do poema é as expedições militares realizadas por portugueses e espanhóis contra jesuítas e indígenas para o cumprimento do Tratado de Madri (1750)  e a tomada dos Sete Povos das Missões, que, conforme o referido tratado, pertenceriam a Portugal.

O propósito declarado do poema é exaltar as tropas portuguesas comandadas por Gomes Freire de Andrade  em combate no sul do Brasil e, mais ainda, o Marquês de Pombal, administrador (primeiro ministro) de Portugal, entre 1750 e 1777. Basílio da Gama, que insere personagens fictícios ao longo da narrativa, acaba “se dobrando” à força, à coragem, à determinação dos indígenas, especialmente do cacique Sepé Tiaraju, durante a Guerra Guaranítica (1753-1756).

O poema traz, por exemplo, os personagens Lindoia e Cacambo, ambos ficcionais, um casal de indígenas lindamente apaixonados, mas separados pela guerra. A grande crítica recai sobre os jesuítas que, na visão impressa pelo poeta, seriam os responsáveis pelo conflito entre portugueses e guaranis. Além disso, surgem cenas fictícias de atitudes reprováveis de religiosos envolvidos em tramas nada recomendáveis.

As pesquisas posteriores, de um modo geral, demonstram que os jesuítas se insurgiram contra o Tratado de Madri e a entrega dos Sete Povos das Missões aos portugueses, mas os indígenas também não o aceitaram, porque significava abandonar as terras, a plantação, as casas, os cemitérios.

Se o poema de Basílio da Gama foi publicado em 1769 e a Guerra Guaranítica findou em 1756, é plausível afirmar que o poeta escreve ainda sob influência dos acontecimentos. Hoje em dia, passados 270 anos daquele conflito é possível analisá-lo com menos paixão (ainda que diga respeito ao nosso chão, a lugares que nossos avós, nossos pais e nós transitamos, o Rio Grande do Sul).

O ano era 1754, Gomes Freire, o comandante das tropas portuguesas que deveriam tomar os Sete Povos das Missões, havia partido de Rio Pardo, um dos pontos mais estratégicos do atual estado do Rio Grande do Sul (que nem existia sob tal denominação), acompanhado por soldados e as armas mais poderosas de então.

Num determinado ponto, às margens do que Basílio da Gama chama “rio caudaloso” e nós conhecemos por Rio Jacuí, as tropas portuguesas deparam-se, na margem oposta, com um grande número de indígenas oriundos das Missões. Os Sete Povos, grosso modo, podem ser comparados a sete cidades com conformação parecida às cidades atuais, com organização e administração próprias.

O local foi denominado Passo do Jacuí e localiza-se quase na confluência do Rio Jacuí (que corta boa parte do atual estado do Rio Grande do Sul) com o Rio Vacacaí Grande, exatamente em território que dois séculos depois comporia o município de Restinga Seca, onde nasci e ainda moro.

A sede do município está distante cerca de 40km daquele local – aliás, um lindo local (uma praia de areias quase brancas situa-se muito próxima do lugar e eu já andei por lá, em tempos idos, sem sonhar  com a grandeza daquele acontecimento, que, segundo historiadores teria retardado em quase dois anos a conquista e derrocada dos Sete Povos das Missões).

Tudo isso vem à mente porque o Rio Grande do Sul comemora, em 2026, 400 anos das Missões – patrimônio que divide com Argentina e Paraguai. Em 1626, o Padre Roque Gonzales fundou a primeira missão, São Nicolau, no que se denomina primeiro ciclo missioneiro.

Encanta-me, como professora de Literatura, que fui/sou, é, em primeiro lugar, essa intersecção entre Literatura e História que nos permite adentrar o universo do que é tido como real por intermédio da narrativa fictícia, mas, ao mesmo tempo, por meio da ficção manter vivos os fatos históricos e termos a oportunidade de reencontrarmos o que fomos, o legado dos nossos antepassados.

Considero que o Brasil do interior tem muitas coisas para nos contar. Também costumo dizer que não nos conhecemos e isso é uma grande lacuna entre nossa gente.


Edição e Ilustração: Jornal e Livraria Rio de Flores

Elaine dos Santos

Professora Doutora em Estudos Literários pelo Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Santa Maria. Professora universitária aposentada. Formação em língua espanhola pela Universidad de la Republica, Montevidéu (UY). Revisora de textos acadêmicos (artigos, dissertações, teses). Participante de diversas antologias. Organizadora de antologias. Laureada com variadas honrarias como medalhas e comendas concedidas pelas Academias que participa.


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