Em 1769, o poeta Basílio da Gama publicou o poema épico O Uraguai. Como era comum entre
os poetas do Arcadismo,
Basílio da Gama usava um pseudônimo, que, no seu caso, era Termindo Sipílio ou
Cipílio (esses pseudônimos remetiam a pastores de ovelhas da Grécia antiga,
inspiração para o Arcadismo).
O cenário do poema é as expedições
militares realizadas por portugueses e espanhóis contra jesuítas e indígenas
para o cumprimento do Tratado de Madri (1750) e a tomada dos Sete Povos das Missões,
que, conforme o referido tratado, pertenceriam a Portugal.
O propósito declarado do poema é
exaltar as tropas portuguesas comandadas por Gomes Freire de Andrade em combate no sul do Brasil e, mais ainda, o Marquês de Pombal,
administrador (primeiro ministro) de Portugal, entre 1750 e 1777. Basílio da
Gama, que insere personagens fictícios ao longo da narrativa, acaba “se
dobrando” à força, à coragem, à determinação dos indígenas, especialmente do
cacique Sepé Tiaraju,
durante a Guerra Guaranítica (1753-1756).
O poema traz, por exemplo, os
personagens Lindoia e Cacambo, ambos ficcionais, um casal de indígenas
lindamente apaixonados, mas separados pela guerra. A grande crítica recai sobre
os jesuítas que, na visão impressa pelo poeta, seriam os responsáveis pelo
conflito entre portugueses e guaranis. Além disso, surgem cenas fictícias de
atitudes reprováveis de religiosos envolvidos em tramas nada recomendáveis.
As pesquisas posteriores, de um modo
geral, demonstram que os jesuítas se insurgiram contra o Tratado de Madri e a
entrega dos Sete Povos das Missões aos portugueses, mas os indígenas também não
o aceitaram, porque significava abandonar as terras, a plantação, as casas, os
cemitérios.
Se o poema de Basílio da Gama foi
publicado em 1769 e a Guerra Guaranítica findou em 1756, é plausível afirmar
que o poeta escreve ainda sob influência dos acontecimentos. Hoje em dia,
passados 270 anos daquele conflito é possível analisá-lo com menos paixão
(ainda que diga respeito ao nosso chão, a lugares que nossos avós, nossos pais
e nós transitamos, o Rio Grande do Sul).
O ano era 1754, Gomes Freire, o
comandante das tropas portuguesas que deveriam tomar os Sete Povos das Missões,
havia partido de Rio Pardo, um dos pontos mais estratégicos do atual estado do
Rio Grande do Sul (que nem existia sob tal denominação), acompanhado por
soldados e as armas mais poderosas de então.
Num determinado ponto, às margens do
que Basílio da Gama chama “rio caudaloso” e nós conhecemos por Rio Jacuí, as
tropas portuguesas deparam-se, na margem oposta, com um grande número de
indígenas oriundos das Missões. Os Sete Povos, grosso modo, podem ser
comparados a sete cidades com conformação parecida às cidades atuais, com
organização e administração próprias.
O local foi denominado Passo do Jacuí e
localiza-se quase na confluência do Rio Jacuí (que corta boa parte do atual
estado do Rio Grande do Sul) com o Rio Vacacaí Grande, exatamente em território
que dois séculos depois comporia o município de Restinga Seca,
onde nasci e ainda moro.
A sede do município está distante cerca
de 40km daquele local – aliás, um lindo local (uma praia de areias quase
brancas situa-se muito próxima do lugar e eu já andei por lá, em tempos idos,
sem sonhar com a grandeza daquele
acontecimento, que, segundo historiadores teria retardado em quase dois anos a
conquista e derrocada dos Sete Povos das Missões).
Tudo isso vem à mente porque o Rio
Grande do Sul comemora, em 2026, 400 anos das Missões – patrimônio que divide
com Argentina e Paraguai. Em 1626, o Padre Roque Gonzales fundou a primeira missão, São Nicolau, no que se denomina primeiro ciclo
missioneiro.
Encanta-me, como professora de
Literatura, que fui/sou, é, em primeiro lugar, essa intersecção entre
Literatura e História que nos permite adentrar o universo do que é tido como
real por intermédio da narrativa fictícia, mas, ao mesmo tempo, por meio da
ficção manter vivos os fatos históricos e termos a oportunidade de
reencontrarmos o que fomos, o legado dos nossos antepassados.
Considero que o Brasil do interior tem muitas coisas para nos contar. Também costumo dizer que não nos conhecemos e isso é uma grande lacuna entre nossa gente.
Professora
Doutora em Estudos Literários pelo Programa de Pós-graduação em Letras da
Universidade Federal de Santa Maria. Professora universitária aposentada. Formação
em língua espanhola pela Universidad de la Republica, Montevidéu (UY). Revisora
de textos acadêmicos (artigos, dissertações, teses). Participante de diversas
antologias. Organizadora de antologias. Laureada com variadas honrarias como
medalhas e comendas concedidas pelas Academias que participa.
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| Direção Geral Renato Galvão |

