sexta-feira, 6 de novembro de 2026

 

    Enquanto os anos se passavam, ela sempre se questionava em qual parte de sua história começaria o seu tal final feliz. Diziam que ela era intensa. Mas ninguém sabia que existiam invernos inteiros escondidos dentro dela. Enquanto as pessoas celebravam o verão, o sol intenso e os dias longos, ela aguardava a chegada do outono, como quem espera um amigo para tomar café. Naqueles dias, as folhas secas ao vento conversavam diretamente com a sua alma e mostravam que o problema nunca esteve em sua intensidade.
    Ela sentia tudo em excesso: a saudade, a alegria, os livros que lia, as músicas que escutava e os amores que guardava. Nunca soube viver pela metade. Nunca soube ser meia amiga ou meio amor e também cobrava isso das pessoas. Por vezes, brigava demais com o mundo, com as pessoas, com ela mesma. Ela carregava tempestades dentro do peito. Talvez por isso amasse tanto o outono e o inverno. Essas estações não exigiam felicidade constante, entrega constante. Não cobravam sorrisos permanentes. Não que ela não quisesse sorrir, pelo contrário, ela implorava por motivos para sorrir todos os dias.
    Mas além dos sorrisos, ela buscava por verdades. E havia verdade no céu cinzento, nas tardes em silêncio e no aroma de café que subia da caneca aquecendo suas mãos. Não que ela não acreditasse na verdade do Sol, mas aprendeu a questionar quando tudo parece claro demais e se tornou uma curiosa acerca do que as pessoas escondem por detrás dos sorrisos.
    Ela gostava da ideia de que até a natureza precisava recolher-se de vez em quando. Ela sentia que pertencia a algo ou alguém. Nas noites frias, sentava-se perto da janela com um cobertor sobre os ombros e observava o vento mover as árvores. Ela sempre encontrava beleza nas pausas. Nas pausas, ela olhava para dentro de si e via-se inundada por uma imensidão de coisas que não sabia explicar para ninguém, tampouco para si.  Mas foi numa dessas noites que compreendeu algo sobre ela mesma: Enquanto algumas pessoas nasciam para os dias ensolarados de verão, ela nasceu para os fins de tarde dourados do outono, para os livros que deixam marcas na alma, para os sentimentos profundos e para os invernos que ensinam que existe beleza até mesmo nas árvores que parecem vazias.
    Ela tinha segredos que escondia desde o ventre de sua mãe e jamais compartilharia ou, esperaria até que alguém embarcasse na mesma estação de intensidade que ela. Essas estações frias nunca falam sobre fim, mas falam sobre transformação. E sobre transformação ela entendia, já que tentava se transformar todos os dias em uma pessoa melhor para não decepcionar aqueles que a decepcionavam com a mesma frequência em que ela tentava os entender.
    Diziam que ela era intensa. E era. Ela decidiu acender uma fogueira e queimar qualquer resquício dos invernos que haviam congelado partes de sua alma, guardando apenas aquilo que o fogo não foi capaz de consumir.

 
Texto: Joyce Silveira
Edição e Ilustração: Jornal e Livraria Rio de Flores.
 
Joyce Silveira é editora e revisora com mais de dez mil textos publicados, bacharel em Direito e pós-graduada em Direito Criminal. Ela possui um livro lançado no gênero de autoajuda. É cristã e possui uma fé inabalável em Deus. Fundou o clube de escrita Sociedade dos Poetas Vivos e o quadro De Frente com o Escritor com a intenção de disseminar a Literatura para todos. Coautora e Organização da Antologia “Sociedade dos Poetas Vivos”. Participou da Antologia “Simplesmente... Natal – Volume III”, produções e publicações do Editorial Riode Flores.

Direção Geral
Renato Galvão