domingo, 17 de maio de 2026


             Existe uma máxima atribuída a Lima Barreto, que se atualiza: “O Brasil não tem povo, apenas público. Povo luta por seus direitos, público assiste de camarote”. De antemão, é importante frisar que não estou defendendo revoluções!

Antes gostaria de fazer um parêntese. A minha tese de doutorado versou sobre o melodrama, um estilo teatral que vicejou na França, logo depois da grande Revolução que se iniciara em 1789, com a queda da Monarquia.

O melodrama tem uma estrutura simples: o andamento das cenas representa a tranquilidade de um momento presente; há uma reviravolta, surge um vilão, a propriedade, a família ou apenas uma mulher (viúva ou jovem indefesa) correm perigo, e eis que surge o “mocinho”, o herói para restabelecer a tranquilidade inicial.

O propósito do melodrama era simples, pretendia-se demonstrar ao povo, que o assistia em praça pública, que o bem triunfaria e a França teria paz.

É próprio do ser humano almejar paz, serenidade, tranquilidade, conforto. Muitos optam, pois, serem plateia dos acontecimentos.

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 13 de maio de 1881, apenas sete anos antes da abolição da escravatura no Brasil. Nasceu, portanto, escravo. O seu pai era filho de uma antiga escrava e um madeireiro português, ou seja, era um mestiço.

A mãe de Lima Barreto era filha de uma escrava e agregada de uma família de posses, o que lhe permitiu ser professora de séries iniciais. Ela ainda teria adquirido uma escola, em que atuou como diretora. No entanto, ela faleceu quando o menino tinha seis anos.

Apesar das adversidades enfrentadas pela família (ou, justamente por causa delas), Lima Barreto passou a trabalhar, em 1907, no meio jornalístico e literário, em revistas conhecidas da sua época, embora sem grande sucesso.

O seu primeiro – e talvez o mais conhecido romance – O triste fim de PolicarpoQuaresma foi publicado, na forma de folhetim em 1911. O livro sairia em 1915, pago com dinheiro do próprio bolso.

A par da carreira artística que principiava, surgiram os primeiros problemas de cunho emocional e o alcoolismo. Lima Barreto seguia escrevendo e, mesmo durante internações em hospício (não havia outra maneira de lidar mesmo com o alcoolismo), não deixou de fazer registros literários, como o inacabado Cemitériodos Vivos.

Do ponto de vista literário, há uma grande crítica à produção de Lima Barreto que diz respeito ao seu estilo fluído de escrever, mais próximo do jornalismo do que da prosa literária. É sempre pertinente repisar a informação que ele publicou O triste fim de Policarpo Quaresma em 1911, um período em que a Literatura brasileira não era mais realista, naturalista, mas ainda não admitira as cores do Modernismo.

Lima Barreto não tinha uma escola literária de filiação. Ele tinha um estilo próprio de escrever, vindo de um tempo e de experiências de um Brasil que se dividia entre o conservadorismo e as primeiras novidades da indústria, por exemplo, que vinham da Europa. Não existe motivos para “enquadrá-lo” em um modelo literário.

Acrescente-se que, por muito tempo, foi excluído da crítica literária oficial, que lhe legou ao ostracismo, exatamente por esse defeito: uma escrita menos afeita aos padrões formais de então. É relevante acrescer que havia na produção de Lima Barreto um caráter combativo e uma crítica à sociedade de seu tempo, como está expresso, por exemplo, em Clara dos Anjos.

Lançado após a morte de Lima Barreto, Clara dos Anjos traz a história da jovem Clara, que completava 18 anos, negra, humilde, que se apaixona por Cassi Jones, branco, semianalfabeto, malandro. Em pouco tempo, Clara engravida e o homem nunca mais apareceu.

Clara e a mãe, acompanhadas por uma vizinha, procuram pela mãe de Cassi Jones e contam-lhe os fatos. Clara é maltratada pela mãe do rapaz, evidenciando-se, a partir daí, os problemas daquela sociedade: racismo, desigualdade social, injustiça. Clara entende que não teria o respeito dos brancos e daqueles que compunham classes sociais superiores à sua.

De imediato, é preciso retomar um ponto histórico: após a abolição da escravatura, os homens recém-libertos não tinham profissão, haviam aprendido a preparar a terra, plantar e colher. Alguns voltaram para as fazendas em que haviam sido escravos. Outros arrumaram pequenos afazeres nas “margens” das cidades. Serviços, por vezes, degradantes.

As mulheres tiveram mais sorte – se isso é possível chamar de sorte: conseguiram trabalho como empregadas domésticas ou algo que se assemelhe a este fazer, limpavam casas, preparavam almoço, janta ou ainda eram responsáveis por lavar as roupas das famílias.

Muitos descendentes de escravos ou ex-escravizados eram “apadrinhados” por famílias de maior poder aquisitivo e conseguiam alçar melhores condições de vida, como é o caso de Machado de Assis e o próprio Lima Barreto. Ambos, cada um a seu modo, denunciaram as mazelas do Brasil do fim do século XIX e início do século XX, porém, de um modo geral, as narrativas predominantes sobre o Brasil pertencem à plateia que não lê, que não vê e que não quer ver para não se comprometer.

Texto: Profa. Dra. Elaine dos Santos                                                            Edição e Ilustração: Jornal e Livraria Rio de Flores

Professora doutora em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Formação em Língua Espanhola pela Universidad de la República, de Montevidéu/Uruguai. Revisora de textos acadêmicos (artigos, dissertações, teses). Diretora fundadora da Rede Sem Fronteiras, Núcleo Rio Grande do Sul. Autora dos livros “Entre lágrimas e livros: as representações do melodrama no teatro itinerante”, adaptação de sua tese de doutorado e “Coisas minhas e outras histórias”, coletânea de crônicas esparsas. Participação em mais de 130 antologias. Organizadora de antologias. Atualmente, dedica-se ao estudo e atualização da História de seu município, Restinga Seca/RS. É membro de diversas academias literárias com destaque para Academia de Letras dos Munícipios (ALMURS), cuja posse aconteceu em 2025, e Academia de Ciências, Letras e Artes Castro Alves, em que tomou posse em 2026, ano em que recebeu o título de “Cidadã Benemérita” do município de Restinga Seca, título concedido pela Câmara de Vereadores.

Direção Geral
Renato Galvão