À
época em que lecionava para turmas de segunda e terceira série de ensino médio,
por vezes, deparava-me com alunos que apresentavam senso crítico mais apurado.
Em
uma turma de terceira série noturna em que discutíamos a obra “Os sertões”
(1902), de Euclides da Cunha, um aluno incrédulo questionou-me: “Peraí,
professora! Sempre teve seca no Nordeste e nunca resolveram?”
A
indignação dele era clara: centenas, milhares de recursos paliativos (ou não)
têm sido enviados para a região nordeste sob o pretexto de equacionar o drama
enfrentado pelo sertanejo em virtude das prolongadas estiagens.
Aquela
aula de Literatura rendeu uma boa discussão sobre administração pública.
Em
uma turma de segunda série, no turno da manhã, ao esquematizar as relações
maritais entre os três portugueses, brancos: João Romão, Miranda e Jerônimo, de
“O cortiço”, demonstrando que João Romão valeu-se dos esforços físicos de
Bertoleza (mestiça), mas se casou com Zulmira (branca); Miranda nunca se
separou de Estela (branca), apesar das traições amorosas, e Jerônimo teve um
grande decréscimo na vida ao unir-se a Rita Baiana (mestiça), havia um aluno
disposto a problematizar.
“Deixa
ver se entendi: branco com branco, tudo bem? Envolveu-se com mestiça, nada
bem?”
Expliquei
que a escola realista no Brasil era, em certa medida, uma representação do
eugenismo ou a simples ideia de branqueamento do povo brasileiro, que se
propunha naquele final do século XIX (19), por estudiosos como Silvio Romero e
Nina Rodrigues.
Há
registros que Nina Rodrigues teria requisitado o cérebro de Antonio
Conselheiro, um mestiço, para estudar o que havia de diferente naquele
organismo que o levara a liderar tantos sertanejos, que confiaram nele e, ao
fim, sacrificaram as suas vidas na Guerra de Canudos.
Lembrei-me
desses casos ao revisar um artigo acadêmico que aborda a questão dos “corpos
matáveis”. Objetivamente, o texto parte da disseminação de cães de rua –
abandonados - por todo o país e da grande quantidade de animais mortos pelas
ruas e avenidas. A problematização é: “de que serve castrá-los e alimentá-los, se
os animais permanecerem na rua, sujeitos a atropelamento, envenamento?”
Como
contraponto, o autor argumenta que comemos galinhas, suínos, bois – e essa
violência é cultural, sendo reprovável em vários países do Oriente.
A
argumentação, na sequência, deriva para os “corpos humanos matáveis”: o pequeno
menino, cuja mãe passeava com um cão “da patroa”, enquanto a dona da casa
colocou a criança no elevador para que subisse até o nono andar, quando ele
caiu e faleceu. Negro e pobre!
Não
é à toa que o Brasil foi construído sob a força de escravos, explorados,
famintos, maltrapilhos, açoitados, que dormiam em senzalas fétidas e – nunca
nos esqueçamos – tinham as suas jovens tornadas “matrizes” de senhores de
engenho, que, ao emprenhá-las, aumentavam o plantel de escravos.
A
Alemanha nazista deu-nos mostra de “corpos humanos matáveis”, o horror do
Holocausto que chocou, entristeceu, ainda assim não fez uma parte da humanidade
entender: foram mortos judeus, ciganos, homossexuais, portadores de
necessidades especiais. Todos “corpos humanos matáveis”.
Temos
um nome oficial, mistanásia, que se refere àqueles que morrem nas filas de
espera por consultas, por exames, por cirurgias. Lembro-me que, antes de 1990 e
a instituição do SUS, os pobres eram tratados como indigentes, à frente de
postos de saúde, desde a madrugada, eles esperavam fichas de consulta para 9h,
10h da manhã.
A
minha avó, aos 82 anos, foi rejeitada por um hospital público: “Nós temos dois
leitos, mas eles devem ser reservados para crianças e jovens. A sua avó já
viveu demais”. O que, hoje em dia, chamamos de etarismo, era apenas um corpo a
deixar-se morrer. Ela era mulher e mestiça. Só mais um corpo humano matável.
O
cardápio fica perfeito quando unimos conservadorismo, ódio, violência,
preconceito, misoginia.
Bertoleza,
em “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, suicidou-se quando percebeu que os seus
esforços para conquistar a carta de alforria, que lhe daria a liberdade, haviam
sido perdidos. Hoje em dia, porém, inúmeras mulheres optam por seguirem as suas
vidas, a sua liberdade de ser feliz. Não, muitas delas tornaram-se “corpos
humanos matáveis” e o velho jargão “se não for minha não será de mais ninguém”
ressurge, com o mesmo negrume, com uma bile podre de uma sociedade que
empobrece, se embrutece e apodrece...
Parafraseando
Camões, mudam-se os tempos, mas as pessoas não aprendem, não evoluem...é
preciso parar, trocar ideias, aprender com o que fomos, com as formas como
chegamos aqui. É preciso haver vida em sua plenitude. Não pode haver o medo que
nos ronda.
Texto: Elaine dos Santos
ProfªDrª Elaine dos Santos. Natural de Restinga Seca/RS. Professora
Doutora em Estudos Literários pelo Programa de Pós-graduação em Letras da
Universidade Federal de Santa Maria. Professora universitária aposentada.
Formação em língua espanhola pela Universidad de la Republica, Montevidéu (UY).
Revisora de textos acadêmicos (artigos, dissertações, teses). Autora dos livros
“Entre lágrimas e risos: as representações do melodrama no teatro mambembe”
(2019) e “Coisas minhas & Outras histórias”, seleção de crônicas.
Participante de diversas antologias. Organizadora de antologias. Laureada com
variadas honrarias como medalhas e comendas concedidas pelas Academias que
participa.
Instagram @
Currículo Lattes disponível em http://lattes.cnpq.br/9417981169683930
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| Direção Geral Renato Galvão |

