No princípio, sem graça de dizer não, eu não conseguia justificar o porquê não atender encomendas de quadros de interessados na minha pintura singela, fosse lá qualquer que fosse o tema ou os personagens. Simplesmente, eu recusava! Levei um tempão sem perceber o que me impedia de aceitar encomendas de pinturas. Era só alguém sugerir um roteiro e, pronto, eu logo dizia que não podia pintar. Eu até necessitava do trabalho! Havia a oportunidade de ganhar honestamente uma graninha; entretanto, eu não conseguia aceitar o pedido! Algum tempo passou, até eu entender qual era o mecanismo psicológico, que me brecava a produção de uma “encomenda”. A pintura tinha de resultar da minha própria vontade. Um dia, eu consegui entender: a mensagem contida na tela deveria ser uma história que eu desejava contar.
Eu queria mesmo era
narrar alguma história, daquelas que me houvessem impregnado a vida com certa
emoção. Não importava se era uma verdade ou uma ficção! Depois, aprendi também
a me emocionar com as contações de “causos” que eu ouvia de outros.
Com a maturidade, fui
analisando o que eu sentia!
Certa ocasião, já faz
muito tempo, fui procurado por um senhor, cujo nome eu não consigo lembrar.
Tratava-se de alguém que havia optado pela vida na clandestinidade. Não me
importava saber o motivo dele haver optado por viver nos “subterrâneos”. O que
eu queria saber, mesmo, era o motivo de querer um quadro meu. No caso, ele
buscava um jogo de bola, daqueles típicos das peladas de várzea. Time dos sem
camisa contra os com camisa, sabe? Como ele não apontou mais nenhum detalhe da
cena, sem determinar compromisso para a sua posterior aceitação, arrisquei
acatar o pedido e fui buscar, nas minhas próprias memórias de tempos vividos, lá
para as bandas da área rural de Teresópolis. Tomei por base a recordação da
equipe da roça, que defendia cores azul e branco do Cruzeiro de Minas Gerais e,
com meus pinceis, pintei aquela “pelada” de várzea.
Terminado o trabalho,
mandei recado, por intermédio de um contato secreto, avisando que o quadro
estava terminado. Ele já poderia aparecer e avaliar o resultado. Logo depois, o
habitante das sombras, já meio senhor, reapareceu. Creio que ele se escondia lá
mesmo, pertinho de onde era o meu ateliê. Ficou olhando, calado! Ocupou algum
tempo de apreciação; então ele falou, curto e grosso: “Gostei muito! Aprovado!
Quanto eu vou pagar?” Fui pego de surpresa, com tamanha objetividade do
comprador. Desacostumado com aquele tipo de situação, fiquei mudo por algum
tempo! Eu não tinha a menor ideia do preço! Ele perguntou novamente, de forma
incisiva: “Qual o valor?” Confesso, fiquei atônito, parecendo criança rasgando
o peito de vergonha! Optei por devolver a questão ao próprio interessado,
falando entre dentes, quase rosnando: “Quanto quer pagar?” O homem já estava
ficando um pouco inquieto, com a demora. Talvez, quem sabe (?), preocupado com
a própria segurança, por estar se expondo, além da medida, num ambiente
desfavorável à sua vida nas sombras. Então ele foi direto. Ele falou o valor de
supetão! Na mesma velocidade, foi tirando do bolso o dinheiro. Eu, como andava
sempre com o fundo dos meus bolsos magros, doidinho para terminar aquilo,
passei a mão no dinheiro, tão rápido quanto pude. Nem conferi na hora! Se eu
não me engano, a moeda da época era o Cruzeiro Novo. Pouco tempo depois,
revendo o valor, achei que eu havia feito uma excelente venda.
Lembro bem dele na
despedida. Elogiou muito, usando linguagem de quem entendia de arte. Pela
primeira vez, ouvi dizer que eu era um “naïf”! Sem saber o que aquele termo
queria dizer, acreditei que ele me desejava muito sucesso. Na época, confesso,
eu não entendi suas palavras. Percebi, logicamente, que eram positivas e
construtivas, porém não consegui alcançar o sentido real.
Até então, eu achava
que só as letras poderiam escrever histórias. Passei cada vez mais a usar os
pinceis carregados de cores primárias, para contar minhas versões do cotidiano.
Cada pintura passou a
ser uma narrativa, algumas vezes verdadeira e em outras pura fantasia; traços
espontâneos, livres, cores vivas e pouco compromisso com a perfeição do
realismo. Minhas “letras” são as pinceladas e querem, muitas vezes, descrever
muitos detalhes. Não há espaço de entrelinhas, embora cada leitor tenha a
própria independência, para interpretar as imagens como as queira entender!
Assim, começaram as
“estórias” que os meus pinceis contam! Vai no passo típico e apropriado do
Jeca-Tatu! Segue implacável o caminho da arte dos poetas anarquistas dos
pinceis (definição dada por Lucien Finkelstein, fundador do Museu MIAN Rio de
Janeiro).
Aquela mesma arte que
batizaram, na França, como “naïf” (ingênua), para tentar desprestigiá-la nos
jornais da época, frisando o perfil primitivo, como sendo em excesso
responsável por toda a espontaneidade e simplicidade temática de cotidianos; a
mesma ingenuidade, quase infantil, que apresentam sempre as obras desse estilo,
a qual os grandes mestres das academias de belas artes da Europa buscavam
entender!
É uma arte que está,
desde o seu início, a desafiar os espaços culturais e os salões nobres.
Desrespeitando mostras seletivas e elitistas, ela vai abrindo mais e mais
lugares, para acolher eventos e artistas desse estilo. A arte naïf, por alguns
também chamada de pintura popular, transgressora de padrões e de técnicas, até
hoje, luta contra preconceitos e apresenta temáticas cotidianas, simplórias,
nas quais, o mais importante, é a capacidade de comunicar sentimentos, tocar
emoções e alegrar corações.
Artistas simples,
humildes e pouco versados em história das artes, os naifs não pretendem se
impor como intelectuais ou grandes mestres. São artistas que merecem o maior
respeito, não pelo que têm, mas pelo que são, como gente! Gente de raízes, de
comprometimento com o barro do chão, da terra de suas aldeias, areia das
veredas do interior; são pessoas contadoras de histórias, autênticas
representantes da cultura popular. Sem demérito, são típicos zé-povinho,
guardiões da mais autêntica e pura raiz da cultura de um povo. São daquelas que
jamais abandonam o cotidiano. São críticos sim, mas não são “metidos a besta”,
querendo ser melhores do que os outros. Simplesmente, são o que são, sem
preocupações em ostentar o que têm!
No Brasil, preferem
personagens simples, daquele tipo de gente do interior ou caboclos, sertanejos,
ribeirinhos, denominados caipiras, sertanejos e jangadeiros, habitantes do
nosso imenso litoral, selvas e sertões; são negros, índios, mulatos, cafuzos e brancos
que estão por séculos a caldear nossa raça.
São autênticos artistas
de raízes bem brasileiras, justamente por isso, por serem notadamente amantes
da nossa fauna e da nossa flora. Sempre atentos ao ambiente, eles amam
especialmente os animais típicos da natureza tropical brasileira, das águas
doces e salgadas, mas também das fazendas e sítios no imenso interior
brasileiro.
Nada os impede de
pintar animais exóticos, como podemos ver nas composições de circos e
zoológicos, desde que exista, na narrativa poética de suas telas, uma razão
forte para isso, embora a preferência seja por animais bem verde-amarelos.
Raríssimos são aqueles que não incorporam nas telas, sempre muito coloridas, as
figuras dos animais de estimação ou de serviço nas fazendas. O boi, o cavalo, o
porco, o bode e as galinhas concorrem entre os animais mais presentes nas telas
ingênuas; porém, acredita-se que os gatos e os cachorros se destacam por serem
mais domésticos do que os demais. É bem verdade, não vamos esquecer, muitos
peixes e aves igualmente frequentam o imaginário desses artistas brasileiros.
Figura 01 - Piraquara- por Rocha Maia
Gostaria de lhes pedir
paciência! Quero, com palavras mesmo, detalhar, um bom exemplo, dessa profunda
e íntima ligação da arte naif, usada para contar minhas histórias com pinceis.
Escolhi um quadro, de raízes bem simples, para mostrar o meu trabalho. É “O
Piraquara!” - Figura 01 (Alcunha que se dá aos habitantes das margens do rio Paraíba do Sul
(RJ e SP)).
A imagem, por si só,
comunica o drama cotidiano, fácil de se tornar verdade, nalguma margem de açude
ou brejo, onde o esquálido menino, frutificado na miséria, busca a paupérrima
oferta da pescaria, diariamente, onde encontra algumas poucas e escassas gramas
de proteína.
Essa é uma narrativa
dramática que, com alguns elementos de semântica da imagem, nos transporta ao
ambiente da tapera, com paredes de taipa de barro, chão empoeirado e seco. O
personagem central, parece atender a alguém que lhe pediu para posar, para uma
rápida fotografia. O menino cheio de pejo, de óculos escuros (Como será que o
objeto foi obtido?), usa chinelos comuns e roupa esmolambada! Ele esconde
alguma coisa nas costas (O que será?).
É aqui que entra a
ingenuidade da narrativa e a simplicidade da leitura, da imaginação, fazendo
com que se olhe para a parte de baixo do quadro, onde realmente reside o foco
do interesse da mensagem. O vira-latas, marotamente, buscando, por trás das
pernas do moleque, o abrigo protetor, vai rodeando o peixinho que pende da vara
de pesca. Nota-se que há moscas voando sobre o lambari. Sinal de que a
“colheita” da pesca pede para ser prontamente preparada, antes de estragar no
calor do dia. Na outra mão, com outro peixinho, possivelmente, ali se encerra o
resultado da pescaria.
Por fim, a gata malandra, amarelada, bem junto da parede, olha de maneira ambiciosa o petisco que poderá abocanhar. Caso a fome aperte e os demais “companheiros” de pescaria não cuidem bem da partilha, a pequena gata entrará em ação. A barriga roliça da felina, quem sabe cheia de crias, mostra a necessidade de ser esperta como ladra; a cadelinha, magricela, irá defender a sua parte com coragem; e o garoto saberá retribuir a fidelidades de todos, com algumas sobras de sua magra refeição naquele dia. Assim, com pinceladas simples, eu contei toda a dramaticidade social da história do Piraquara, habitante da camada miserável da população brasileira.
Ilustração: Jornal Rio de Flores
Luiz Roberto da ROCHA MAIA –
nasceu no Rio de Janeiro/1947. Morou em Teresópolis e Brasília e, atualmente,
em Rio das Ostras. Em 2023, completa mais de cinquenta anos de atividade
cultural.
Membro de diversas entidades culturais, no Brasil e em Portugal, é
Fundador da Associação Candanga de Artistas Visuais - Brasília /DF. Membro da
Academia Brasileira de Belas Artes – ABBA do Rio de Janeiro; e da Academia de
Letras e Artes ALEART, Região dos Lagos/RJ. Participou de mais de duzentos
eventos de artes no Brasil, Cuba, Portugal, França e Bulgária. Recebeu mais de
setenta premiações e destaques em salões de artes plásticas.
Citado em catálogos e sites, possui obras expostas em galerias no Brasil
e no exterior; bem como nos acervos do Museu Naïf de São José do Rio Preto/SP;
MIAN/Rio/RJ; SESC/SP, na coleção do Château des Réaux; e do Museu Internacional
de Arte Naïf de Vicq, na França. Seus quadros estão presentes também em
pinacotecas de diversas entidades e coleções de aficionados por arte naïf no
Brasil, Cuba, França, Itália, Espanha, Chile, Japão, Bolívia e Portugal.
Por três vezes foi selecionado para a Bienal Naïfs do Brasil, tendo
recebido o prêmio aquisição 2006, em Piracicaba/SP. Na literatura, publicou o
catálogo “Ingenuidade Consciente”, Editora A3 Gráfica e Editora – 2010; o livro
“O Diário de Lili Beth”, pela editora Videu – 2021; e colaborou com a Coluna
Arte Animal, da revista digital Animal Business Brasil, escrevendo artigos
versando sobre a presença de animais como tema nas belas artes.


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Fantástico.👋👋👋👋
ResponderExcluirMuito obrigado pela forma gentil de aplaudir meu trabalho.
ExcluirNossa, adorei o texto e o quadro realmente é muito bem pintado.
ResponderExcluirNão sou o maior entendedor de arte mas quanto ao seu relato eu posso dizer que é magnífico conhecê-la através dos seus olhos. Parabéns
Fico feliz e muito agradecido por sua crítica positiva.
ExcluirQue maravilha! Quanto esclarecimento em uma única postagem! Parabéns amigo e muito sucesso!
ResponderExcluirMuito agradecido por suas palavras positivas.
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