De Literatura e outras Artes
Colunista:
Prof. Dra. Elaine dos Santos
Última Flor do Lácio
Camões, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, José Saramago, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, entre outros grandes escritores, legaram-nos belíssimas obras, escrevendo naquela que Olavo Bilac chamou “última Flor do Lácio, inculta e bela”, a língua portuguesa.
Lácio é uma região do antigo Império Romano, de onde partiu o latim, base da língua portuguesa. A palavra bela dispensa maiores definições e inculta justifica-se porque o latim vulgar que chegou, muito mais falado do que escrito, até a Península Ibérica, área em que, hoje em dia, situa-se Portugal, era, de fato, inculto, não seguia as declinações e o cuidado retórico do latim culto usado pelos grandes tribunos romanos. A língua latina vulgar, falada por soldados, aventureiros e prostitutas que povoaram Portugal e região, era inculta.
O latim vulgar, em Portugal, sobrepôs-se às línguas celta, íbera, turdetana, entre outras pertencentes aos povos que já viviam naquele lugar, mas foi influenciado por elas, assim como sofreu influência de grego, fenício, cartaginês, que eram povos que comercializavam com os antigos habitantes da região.
Posteriormente, com a queda do poderoso Império Romano, os territórios de Espanha e Portugal foram invadidos pelos chamados povos bárbaros – godos, visigodos, suevos, ostrogodos -, cujo vocabulário teve pouca relevância sobre a língua portuguesa, porque eram povos com vocação bélica, de guerra.
Em 711, os árabes invadiram a região e ali ficaram por mais de 700 anos, até que fossem definitivamente expulsos pelos reis católicos de Castella, Fernando e Isabel, em 1492. De influência árabe, em nossa língua, é possível citar: almôndega, arroz, alcachofra, alcaparra, armazém, almoxarifado etc.
Após o achamento do Brasil, o território foi abandonado por cerca de 30 anos, até que começasse algum interesse pelo local. Para cá, vieram aventureiros, degredados/exilados e prostitutas, ou seja, aqui chegou um português muito mais falado do que escrito – e falado pelo “povão” -, que acabou recebendo influências dos nativos (indígenas), africanos, imigrantes europeus.
No século XIX (19), o mundo viveu sob forte influxo do universo francês: moda, arte, língua. Inúmeros termos franceses foram assimilados pela língua portuguesa do Brasil e “aportuguesados”. E vida que seguiu.
O século XXI (21) sofreu a influência da rede mundial de computadores, a internet, e, com ela, vieram os vocábulos e as construções oracionais da língua inglesa. É um tal de “deadline”, “check in”, “log out”, “check list” e por aí vai.
Para uma população que tem dificuldade, muitas vezes, para compreender a língua falada e escrita no Brasil, ainda submeter-se à assimilação pura e simples de uma língua estrangeira é, no mínimo, preocupante. Eu uso, com frequência (para ficar em um exemplo singelo), a palavra “ignorante” para designar aquele que desconhece (sentido original da palavra: “ign o ratĭo” = aquele que desconhece, a quem falta um saber), mas isso é considerado uma ofensa, porque as pessoas interpretam como “burro”, que, grosso modo, é o estúpido, sem inteligência. Em outras palavras, se não conseguimos nos entender em português, por que queremos introduzir vocábulos de língua estrangeira como se fossem nativos, nossos?
O fenômeno das redes sociais, por outro lado, está empobrecendo ainda mais a nossa língua materna, o português. Como há desconhecimento da língua portuguesa, dificuldade de interpretação, o uso de determinadas figuras de linguagem acabou restrito ou proscrito (proibido). Não se pode mais usar uma metáfora (comparação subentendida), porque muitas pessoas não entendem o que ficou subentendido e fazem uma interpretação literal, ofendendo-se diante daquilo que não entenderam. A ironia, figura de linguagem consagrada por Machado de Assis, mas muito usada, por exemplo, por Jô Soares, é confundida com deboche e está, pois, proibida.
A língua portuguesa empobrece, dessa maneira, do ponto de vista do vocabulário, mas também o faz do ponto de vista da expressão. É preciso desenhar, colorir e ainda fazer memorial descritivo sobre “o que se quis dizer”, porque não basta o que está escrito.
Ler, estudar, escrever, praticar o uso da língua portuguesa, com os preceitos mínimos de seu bom uso, nem pensar. Infelizmente! E eu fico imaginando qual será a língua portuguesa que será herdada pelos filhos e netos desses que hoje ofendem-se com qualquer “ai” que não entendem, não pesquisam, não procuram informar-se sobre os múltiplos significados de uma palavra. Tristes tempos.
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Edição e Direção Geral: Renato Galvão


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