Já
se foi o tempo que eu enxergava longe, ainda que enxergasse, a ansiedade
confundia minha visão imediatista e me fazia querer na minha frente algo que
deveria passar pela estrada do tempo, muitas vezes, estradas bifurcadas que
entregavam outros destinos, me separando do objeto de desejo e me colocando
diante de abismos colossais, mas foi caindo inúmeras vezes que aprendi a voar,
ou, no caso, a ver com que deveria ir.
Com o tempo, a visão foi se conformando
a um novo instrumento, os óculos. Assim fui treinando para enxergar melhor,
tropeçando algumas vezes, consequentemente aprendendo a andar no ritmo certo,
não exatamente conformado, porém confiante de que com a maturidade míope, vinha
a segurança de que a cada passo eu decidiria com mais exatidão a direção e o
destino a seguir, agora por não enxergar bem à grandes distâncias, a ansiedade
foi dando lugar a uma sábia cautela, não mais querendo adiantar cada detalhe como
antes, agora entendendo que nem sempre o que parecia estar no horizonte era de
fato meu, às vezes, a espera demorada era o que precisava para entender que o
que merecia ainda estaria por vir ou o que aquilo ao qual eu me agarrava teria
de deixar no caminho mais a frente.
Santa miopia! O que seria de mim se eu
enxergasse tudo com suposta clareza desde o início? Me iludiria com a beleza
passageira? Me decepcionaria com a rapidez com que passam os momentos bons? Me
deslumbraria menos com as árduas conquistas? Tudo seria diferente se eu
enxergasse melhor, porém talvez eu não fosse quem eu sou com essa bagagem
acumulada pelo olhar mais acurado. Quantas vezes deixei de ver o óbvio quando
ainda imaginava enxergar bem? Inúmeras vezes não via o sarcasmo ou a ironia com
que me colocava em certas situações, somente com o cuidado dos óculos no rosto
eu pude ver atentamente o que era realidade e o que era fantasia no mundo cada
vez mais desfocado e limitado onde a miopia se misturava com estranhezas
alheias, gente que nem sabia que não enxergava e tinha certeza absoluta de que
toda sua sabedoria seria inquestionável.
A gente não entende os desígnios do
universo de primeira, às vezes bate de cara em portas fechadas, tropeça nos
próprios pés, imagina ser ouro um saco de lixo dourado na borda de um
arco-íris, entretanto é errando que se aprende, não é? Aprendi a ver melhor,
não olhando no espelho, e sim buscando novas lentes, novas formas de ver a vida
e aprender com cada detalhe que passaria despercebido a um olhar ingênuo, sem
as marcas dos tempos passados. Quantos olhares deixamos em prateleiras porque
escolhemos viver de ilusões? Talvez o olhar inocente ainda não tivesse
despertado para entender que muitas vezes, a miopia não é condição genética ou
inconsciente, mas sim uma forma de tentar se adequar a um mundo que limita
nossa visão, lentes erradas além do nosso conhecimento... Nosso olhar
precisaria de um outro mundo diferente deste para enxergar a verdadeira
realidade. Enquanto este dia não chega, os óculos nos ajudam a não nos
perdermos diante das possibilidades distantes e caminhos tortuosos.
Pensar
sobre tudo isso, pode parecer um grande enigma, mas uma boa lente nos ajuda a
entender melhor o texto, se não for hoje, quem sabe relendo-o amanhã...
Texto: Pedro Garrido
Edição e Ilustração: Jornal e Livraria Rio de Flores
Pedro
Garrido é pedagogo, poeta, escritor e palestrante de São Gonçalo - RJ.
Participou de diversas antologias e eventos literários nacionais e
internacionais, além de ser membro de três academias literárias e de coletivos
culturais. Em janeiro de 2021, lançou seu primeiro livro de poemas,
"(Uni)Verso". Até agora, publicou quatro obras individuais:
"(Uni)Verso" (2021), "duo" (2022), "Teshuvá"
(2022) e "Pedrinho e o Cão Brabão" (2023). Também é o criador e
produtor cultural do sarau (Uni)versos Livres, realizado mensalmente na Casa de
Cultura Heloísa Alberto Torres, em Itaboraí.
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Direção Geral Renato Galvão |
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