Queria
saber pintar as palavras todas as vezes que ela se crava como estaca em meu
peito, descrever com cores quando meu corpo queima sentimento transformado em
febre, sentir no azul anil a paz em pinceladas no quadro e o amarelo alaranjado
de um pôr do sol apaixonado. A palavra me escava, desova meu corpo, me põe de
pé na frente de um vulcão com verde enxofre em erupção, num turbulento
movimento desconhecido de caótica transformação. Não pinto palavras, as digo
como quem vomita universos enquanto admira a beleza que toma as cores e até a
luz no centro de um buraco negro.
Não sei pintar palavras, todas as cores se derramam do peito como sangue e pó de estrelas, não sei a textura certa da tela, o tipo certo de tinta, se o rio que flui é claro, escuro ou misterioso por definição, o papel se amontoa de variados desvarios em forma de neologismos antiquados, repetidos sons e gemidos, gritos ecoados em um céu quase transparente antes da chuva em aparente deserto.
As palavras que não sei pintar, são jogadas em poças e se pintam sozinhas, cada uma ao seu modo, misturando sentidos e rótulos, com sentimentos desconexos e confusos, quase um autorretrato surrealista obscuro feito de borrões. Sou de palavras borradas pelas diversas tentativas de serem ditas de mil e uma formas, do mais lúdico ao pseudocult que se torna caricatura abstrata do ser humano caído. Dito o não dito, contrário ao que reverbera, não assino contrato, pois o que não disse ainda espera, para sair, admitindo a insaciedade, a incapacidade de parar, mesmo não sabendo colorir o verbo para dizê-lo de uma forma mais caprichosa, com curvas silhuetas de normas gramaticais e a fineza de impérios imaginários descritos nas pedras Neandertais com capas comerciais e preços das estratos(feras).
No fim, as palavras escoam suavemente na sarjeta, no sarau, nas escadas, na entrada principal, no palco do Teatro Municipal, no Museu. O quadro, salpicado de tinta sem direção é real, tem um pouco de mim em cada parte da cidade, tem partes vivas, o gesto seco, o quase gozo da quase chegada e despedida, o desespero vivaz de ser lembrado no centro da existência, restos viscerais na periferia do eu ansiando um momento de visibilidade, um rabisco tremido e sem tom no canto da tela que ainda teme não ser parte da realidade subestimando o valor da expressão.
Edição e Ilustração: Jornal e Livraria Rio de Flores
PedroGarrido é pedagogo, poeta, escritor e palestrante de São Gonçalo - RJ. Participou de diversas antologias e eventos literários nacionais e internacionais, além de ser membro de três academias literárias e de coletivos culturais. Em janeiro de 2021, lançou seu primeiro livro de poemas, "(Uni)Verso". Até agora, publicou quatro obras individuais: "(Uni)Verso" (2021), "duo" (2022), "Teshuvá" (2022) e "Pedrinho e o Cão Brabão" (2023). Também é o criador e produtor cultural do sarau (Uni)versos Livres, realizado mensalmente na Casa de Cultura Heloísa Alberto Torres, em Itaboraí.
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| Direção Geral Renato Galvão |


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