Quando a saúde permite, a mente
se enleva, guiada pelo tema sugerido pelo edital da antologia! Então, vou digitando
as linhas do texto. É assim que faço, como se fora um projeto antigo, daqueles
longamente matutados nas madrugadas de muitos sonhos, quando me proponho a
redigir. Por certo, você sabe o que eu quero dizer com “madrugadas de muitos
sonhos”! Não é a mesma coisa que dizer de noites mal dormidas; tampouco estou a
falar de pensamentos agourentos que por vezes nos assaltam como pesadelos!
Infelizmente, com a idade,
percebo que vou ficando susceptível aos assombros noturnos, principalmente
quando me deixo levar pelos negativos “noticiários” pautados, nos atuais canais
de “telejornalismo”! Que desgraça é essa, minha gente? Pois bem! O resultado
qual é? Sabe o que eu tenho feito? Eu me desligo! Não assisto mais noticiários,
especialmente antes de me deitar. Pelo amor de Deus, gente! Larga do meu pé,
bando de fofoqueiros! Sei que existem jornalistas profissionais de caráter e
honestidade! Atualmente eles são mais fáceis de identificar. Adoro aqueles que
deixam os ouvintes com a liberdade de opinar e tirar conclusões próprias. Podem
até ser erradas as minhas conclusões, mas elas me pertencem, são próprias, são
as minhas, e não o fruto de manipulação e dirigismo estatal da opinião dos
cidadãos.
Então, para não sofrer, desligo a
TV, procuro um bom filme ou simplesmente ponho-me a sonhar. Depois, no dia
seguinte, eu encontro algum tempo para escrever e organizar as ideias que os
sonhos me iluminaram. Quando dou início ao que desejo escrever, tendo um título
previamente indicado, parece que as coisas ficam mais bem esclarecidas; é como
se eu tivesse um norte; aquela direção de estrada a seguir, com as curvas e as
retas bem indicadas.
Mas aqui, neste caso, não firmei uma
proposta de titulação para o artigo. Quem sabe? Talvez, mais ao final esse detalhe
surgirá; e será esclarecido!
Então vou caminhando, em meio aos
pincéis e às letras! Vou contando com os certeiros cochichos, oferecidos pelas
estranhas vozes que me aconselham a consciência, principalmente na hora de
escrever. Vou mais lentamente, isso é certo! Não dá pra correr, afinal, a estrada
do escritor que se vale do idioma português é sempre mais arriscada e torna-se
perigosa nas curvas semânticas. Que o português é uma língua bela e que oferece
alternativas ilimitadas a uma boa comunicação, isso ninguém nega! Justamente, o
problema recai nesse ponto, isto é, na sua riqueza gramatical! Qualquer pequena
derrapada, numa curva pouco conhecida do idioma, levará a gramaticalização para
o barranco do léxico! É quando deixamos de ser simples e humildes escritores ou
poetas, e acreditamos ser uma espécie de Airton Senna redacional, por imaginarmos
como sendo praticantes da gramatologia, e findamos por produzir somente gramatiquices
ridículas e primárias! Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, devo ponderar,
vez ou outra, uma pequena derrapada no texto dá uma ponta de emoção e prazer ao
escritor. E tem mais! Muitas vezes, derrapamos nas retas; saímos catando pedras
nos acostamentos das entrelinhas, cantando pneus da ortografia equivocada,
justamente num trecho onde jamais se pensaria cometer aquele tão absurdo erro,
jamais encontrado pelo revisor! Creio que tenham sido, digamos assim, essas “licenças
poéticas” que marcaram, positivamente, algumas das mais belas odes poéticas da
literatura portuguesa e brasileira!
Eu, que estou quilômetros
distante de me considerar um ESCRITOR, reconheço que gosto de escrever, mesmo
sabendo que terei deslises, com minhas “derrapagens” e “catadas de meio-fio”! Perdoem-me
os leitores, se eu os martirizo com essas mal traçadas (por vezes “despencadas”)
linhas. Leio e releio as coisas que vou garatujando, rabiscando mesmo minhas
ideias. Estou certo de que a inteligência dos mais modernos corretores digitais
de textos será pouca, para garantir que escreverei corretamente!
Não vou chegar aos termos propalados
por Paulo Freire, que pretendeu dar, ao processo de aprendizado da língua
portuguesa, uma liberdade exagerada, como se assim fosse possível ampliar o
processo de comunicação. Provocou sim, um puro desregramento idiomático! Um grande
engano! O distanciamento da observação das regras do vernáculo, na forma Paulo
Freire, coloca o indivíduo na condição de isolamento e vulnerabilidade. A
ignorância estimulada, com os maus exemplos de cima para baixo, reverbera na
sociedade um vácuo cultural, que será fatalmente ocupado pelos estrangeirismos ou,
o que é pior, pela contracultura generalizada. Um povo que perde sua língua
nacional, perde suas raízes e por certo já estará a caminho da submissão. Vejam,
como exemplo, o caso dos indígenas no Brasil, onde aproximadamente 210 milhões
de habitantes falam português, enquanto apenas 170 mil pessoas falam cento e
noventa idiomas indígenas. Por mais que se possa imaginar uma solução, capaz de
garantir a sobrevivência dessas “nações”, creio que o destino dos povos
originários está traçado há muitos anos; e bem pode ser imaginado qual será! Faltou
aos habitantes primitivos o conjunto de palavras e expressões usadas em comum,
como característica de um só povo, portanto faltou-lhes o chamado “idioma
nacional”.
Consultando um dicionário,
ficamos perplexos com a quantidade de significados e sentidos que a palavra “língua”
apresenta em português. Deve ser por essa razão que é tão complicado escrever
corretamente no nosso idioma. Complicado, porém não desanimador! Tente,
persista, erre e supere as dificuldades, vá avante! Sacodindo a poeira, “dê a
volta por cima”, e siga escrevendo! Melhor errar na escrita de suas ideias do
que ser omisso; tenha opiniões firmes e coragem para apresentá-las por escrito.
Publique, divulgue, aceite opiniões contrárias; jamais deixe de emitir a sua
própria versão dos fatos. Rosne suas ideias, mesmo sendo elas aparentes
boçalidades, mas escreva com convicção. Tenha persuasão íntima e exponha seus
pensamentos! Não se furte quando desejar falar, contudo escreva antes o que
deseja discursar. Uma boa oratória demanda um excelente texto!
Por fim, lembre-se de que,
palavras ditas ao tempo, o vento as carregará aleatoriamente, levando a ouvidos
desatentos. Em breve, elas estarão perdidas e esquecidas! Entretanto, ao escrevê-las,
você tentará perpetuá-las e, dessa forma, garantir que gerações, muito além da
sua, poderão ler, discutir e aperfeiçoar aquelas simples ideias que, no início,
por não terem um título, um rumo, um destino, pareciam sem finalidade.
Benditos sejam aqueles que se
dedicaram a escrever mensagens. Salve os escribas! Com erros ou não, o que
importa é que redigiram! Foram eles que, ao longo dos milênios, registraram o
pensamento humano inteligente! Por meio de palavras, eles permitiram estarmos,
hoje e aqui, para decifrar, interpretar e narrar aquilo que a história
consagrou. Das crenças religiosas, aos ensinamentos das velhas práticas da
medicina, passando pelo cotidiano bem popular, até mesmo pelo erotismo humano, o
que sabemos do passado, com alguma certeza, está registrado no que podemos ler,
graças aos fragmentos de textos gravados em papiros e pergaminhos. Portanto: Escreva
e publique!
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| “Releitura do Papiro de Turin”, por Rocha Maia |
Ilustração: Jornal Rio de Flores
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| Edição e Direção Geral Renato Galvão |
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