segunda-feira, 6 de julho de 2026

 


Por sermos carentes de uma figura que nos proteja de nossos fracassos individuais e coletivos, precisamos e procuramos, constantemente, heróis incontestáveis, convocamos qualquer um que acerte uma previsão mais otimista para ser nosso salvador momentâneo. Mas vai além, dedicamos nossa vida e nosso caminho, colocando nas mãos de desconhecidos os nossos passos, simplesmente porque temos receio de acertar e, com medo de acertar, preferimos confiar o nosso erro ao outro, alguém que enxerga algo que nós não vemos, ainda que o outro seja completamente cego e esconda sua cegueira e suas muletas em certezas vazias de exatidão, apenas chutes vagos em uma multidão de possibilidades. Fica mais fácil culpar qualquer outra coisa e assim nos preservar da vergonha, essa é a verdade. É mais fácil delegar ao outro a possibilidade do sucesso ou do fracasso do que admitir a incapacidade de alcançar um objetivo ou o próprio talento que se tem para chegar ao objetivo desejado.

Indo para a origem do tema, na infância temos em nossos pais o espelho de quem deveríamos ser, nos norteamos por aquilo que aprendemos deles, se temos receio ou coragem de assumir algum risco, são eles que determinam para onde iremos, se é mais prudente não fazer nada ou se é hora de avançar no que estamos aprendendo. Uma criança que anda de bicicleta de rodinhas com o pai imagina que, em algum momento, aquelas rodinhas vão ser tiradas e comemora quando consegue andar sem elas. Mas quando falta o referencial familiar, falta também a evolução e as rodinhas continuam por mais tempo do que deveriam e paramos de andar de bicicleta, começamos a tropeçar porque não aprendemos a andar com segurança, pensamentos negativos podem surgir quando não temos coragem de evoluir em relação às nossas limitações não trabalhadas anteriormente, seja pela falta de referencial, seja por um excesso de proteção que pode ter sido repetido por gerações anteriores que também não souberam receber o cuidado necessário da forma exata, assumir o risco e voar do ninho no tempo certo.

Pode parecer brincadeira de criança, mas em tempos de Copa do Mundo, vemos um pouco disso refletido na sociedade na totalidade, procuramos a resposta para os resultados futuros dos jogos, em jogos de azar, na forma como um polvo vai se comportar, perguntamos ao famigerado IA, buscamos dados quase proféticos que traduzam nossa ansiedade em resultados que nos acalmem. Tem a brincadeira, mas tem o reflexo da nossa necessidade de ter alguém que nos salve, ainda que seja a seleção brasileira, mas uma salvação que nos salve com os convocados e nos faça ter motivos para comemorar, mesmo que esse motivo nos leve a ter que procurar mais respostas para o jogo seguinte, para o campeonato seguinte, para quase tudo que se segue na vida e assim terceirizamos a rodinha da bicicleta, tiramos a rodinha e deixamos outra pessoa no nosso lugar, tomando as decisões por nós, mesmo que nem nos caibam certas decisões, vamos torcer por nós mesmos da arquibancada e assistir ao jogo da nossa vida como expectadores, deixando que teóricos de todas as conspirações possíveis ditem e digam que a rodinha daquela bicicleta ou nunca deveria ter existido ou que a rodinha não existe, é fruto da sua cabeça e só o que ele diz é o certo, sem deixar que você pense e questione sobre isso.

Por hoje, dê o primeiro passo, arrisque andar sem rodinhas, questione o que você ouve, arrisque você mesmo chutar ao gol quando o jogo parecer muito parado, busque quebrar o padrão que te tirou a referência de sucesso, assuma o risco do protagonismo, perca o medo do fracasso e da queda, tente de novo, não desista de alcançar o que merece, você pode mais, você pode ser herói da própria vida, diga que você pode vencer e vença, ir além começa em e por você.


Texto: Pedro Garrido.
Ediçãoe Ilustração: Jornal e Livraria Rio de Flores

Pedro Garrido é pedagogo, poeta, escritor e palestrante de São Gonçalo - RJ. Participou de diversas antologias e eventos literários nacionais e internacionais, além de ser membro de três academias literárias e de coletivos culturais. Em janeiro de 2021, lançou seu primeiro livro de poemas, "(Uni)Verso". Até agora, publicou quatro obras individuais: "(Uni)Verso" (2021), "duo" (2022), "Teshuvá" (2022) e "Pedrinho e o Cão Brabão" (2023). Também é o criador e produtor cultural do sarau (Uni)versos Livres, realizado mensalmente na Casa de Cultura Heloísa Alberto Torres, em Itaboraí.

Direção Geral
Renato Galvão


 


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