segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

 


À época em que lecionava para turmas de segunda e terceira série de ensino médio, por vezes, deparava-me com alunos que apresentavam senso crítico mais apurado.

Em uma turma de terceira série noturna em que discutíamos a obra “Os sertões” (1902), de Euclides da Cunha, um aluno incrédulo questionou-me: “Peraí, professora! Sempre teve seca no Nordeste e nunca resolveram?”

A indignação dele era clara: centenas, milhares de recursos paliativos (ou não) têm sido enviados para a região nordeste sob o pretexto de equacionar o drama enfrentado pelo sertanejo em virtude das prolongadas estiagens.

Aquela aula de Literatura rendeu uma boa discussão sobre administração pública.

Em uma turma de segunda série, no turno da manhã, ao esquematizar as relações maritais entre os três portugueses, brancos: João Romão, Miranda e Jerônimo, de “O cortiço”, demonstrando que João Romão valeu-se dos esforços físicos de Bertoleza (mestiça), mas se casou com Zulmira (branca); Miranda nunca se separou de Estela (branca), apesar das traições amorosas, e Jerônimo teve um grande decréscimo na vida ao unir-se a Rita Baiana (mestiça), havia um aluno disposto a problematizar.

“Deixa ver se entendi: branco com branco, tudo bem? Envolveu-se com mestiça, nada bem?”

Expliquei que a escola realista no Brasil era, em certa medida, uma representação do eugenismo ou a simples ideia de branqueamento do povo brasileiro, que se propunha naquele final do século XIX (19), por estudiosos como Silvio Romero e Nina Rodrigues.

Há registros que Nina Rodrigues teria requisitado o cérebro de Antonio Conselheiro, um mestiço, para estudar o que havia de diferente naquele organismo que o levara a liderar tantos sertanejos, que confiaram nele e, ao fim, sacrificaram as suas vidas na Guerra de Canudos.

Lembrei-me desses casos ao revisar um artigo acadêmico que aborda a questão dos “corpos matáveis”. Objetivamente, o texto parte da disseminação de cães de rua – abandonados - por todo o país e da grande quantidade de animais mortos pelas ruas e avenidas. A problematização é: “de que serve castrá-los e alimentá-los, se os animais permanecerem na rua, sujeitos a atropelamento, envenamento?”

Como contraponto, o autor argumenta que comemos galinhas, suínos, bois – e essa violência é cultural, sendo reprovável em vários países do Oriente.

A argumentação, na sequência, deriva para os “corpos humanos matáveis”: o pequeno menino, cuja mãe passeava com um cão “da patroa”, enquanto a dona da casa colocou a criança no elevador para que subisse até o nono andar, quando ele caiu e faleceu. Negro e pobre!

Não é à toa que o Brasil foi construído sob a força de escravos, explorados, famintos, maltrapilhos, açoitados, que dormiam em senzalas fétidas e – nunca nos esqueçamos – tinham as suas jovens tornadas “matrizes” de senhores de engenho, que, ao emprenhá-las, aumentavam o plantel de escravos.

A Alemanha nazista deu-nos mostra de “corpos humanos matáveis”, o horror do Holocausto que chocou, entristeceu, ainda assim não fez uma parte da humanidade entender: foram mortos judeus, ciganos, homossexuais, portadores de necessidades especiais. Todos “corpos humanos matáveis”.

Temos um nome oficial, mistanásia, que se refere àqueles que morrem nas filas de espera por consultas, por exames, por cirurgias. Lembro-me que, antes de 1990 e a instituição do SUS, os pobres eram tratados como indigentes, à frente de postos de saúde, desde a madrugada, eles esperavam fichas de consulta para 9h, 10h da manhã.

A minha avó, aos 82 anos, foi rejeitada por um hospital público: “Nós temos dois leitos, mas eles devem ser reservados para crianças e jovens. A sua avó já viveu demais”. O que, hoje em dia, chamamos de etarismo, era apenas um corpo a deixar-se morrer. Ela era mulher e mestiça. Só mais um corpo humano matável.

O cardápio fica perfeito quando unimos conservadorismo, ódio, violência, preconceito, misoginia.

Bertoleza, em “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, suicidou-se quando percebeu que os seus esforços para conquistar a carta de alforria, que lhe daria a liberdade, haviam sido perdidos. Hoje em dia, porém, inúmeras mulheres optam por seguirem as suas vidas, a sua liberdade de ser feliz. Não, muitas delas tornaram-se “corpos humanos matáveis” e o velho jargão “se não for minha não será de mais ninguém” ressurge, com o mesmo negrume, com uma bile podre de uma sociedade que empobrece, se embrutece e apodrece...

Parafraseando Camões, mudam-se os tempos, mas as pessoas não aprendem, não evoluem...é preciso parar, trocar ideias, aprender com o que fomos, com as formas como chegamos aqui. É preciso haver vida em sua plenitude. Não pode haver o medo que nos ronda.

Texto: Elaine dos Santos

Edição e Ilustração: Jornal e Livraria Riode Flores

ProfªDrª Elaine dos Santos. Natural de Restinga Seca/RS. Professora Doutora em Estudos Literários pelo Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Santa Maria. Professora universitária aposentada. Formação em língua espanhola pela Universidad de la Republica, Montevidéu (UY). Revisora de textos acadêmicos (artigos, dissertações, teses). Autora dos livros “Entre lágrimas e risos: as representações do melodrama no teatro mambembe” (2019) e “Coisas minhas & Outras histórias”, seleção de crônicas. Participante de diversas antologias. Organizadora de antologias. Laureada com variadas honrarias como medalhas e comendas concedidas pelas Academias que participa.

Instagram @profe.elainerevisoradetextos

Currículo Lattes disponível em  http://lattes.cnpq.br/9417981169683930


Direção Geral
Renato Galvão


 


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